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Dramas de Primeiro Mundo

Dramas de Primeiro Mundo

05.Mar.14

Ai não posso? Posso pois!

Diana M.
Estou farta que me digam que não podemos ser aquilo que queremos. Estamos em crise? Estamos. Há uma taxa elevadíssima de desemprego, principalmente entre os jovens licenciados? Há. Muitos desses jovens emigram porque não encontram saídas aqui? Sim. E é um cenário triste este que vivemos, quando o nosso próprio país não nos acolhe e desperdiça tantas oportunidades. Cada jovem que sai, é uma oportunidade perdida de o nosso país se tornar melhor. O cenário não é risonho, mas porra, não me digam que tenho de desistir porque as coisas estão más. Não sou eu que estou errada em querer atingir os meus objectivos, em querer seguir os meus sonhos e em querer fazer aquilo que gosto.

Sou formada numa área que parece que não serve para nada, como as restantes Humanidades, Artes e Ciências Sociais. Portanto, segundo o senso comum, eu estava condenada, desde o início, à situação em que me encontro agora: com um mestrado em Estudos Ingleses e Americanos e sem emprego. Mas não tenho que baixar a cabeça, resignar-me e dizer "pois, não devia ter tirado este curso..." Que raio! Eu tirei o curso que gosto e a culpa de não ter oportunidades não é minha: é dos governos sucessivos que não sabem pensar por si próprios e que fazem cegamente aquilo que a UE lhes diz que têm que fazer (um curso em Humanidades, Artes ou Ciências Sociais, se calhar, tinha-lhes ajudado a saber pensar...). 

Por isso, parem de culpar as pessoas pelas escolhas que tomaram quando decidiram fazer este ou aquele curso universitário. Parem de estar constantemente a perguntar "Já arranjaste trabalho?" "Estás à procura?" "O que fazes o dia todo?", como se quisessem provar que tirámos o curso errado. Não somos nós que estamos errados.

Aqui há dias perguntaram-me: "Independentemente de tudo o resto, se pudesses estar a fazer o que gostas, o que seria?" 
E eu respondi: "Estaria a fazer o doutoramento para depois poder continuar a fazer investigação e dar aulas na Universidade". É isto que eu quero. Ser professora universitária, partilhar o meu conhecimento com os outros e continuar a fazer investigação. E não me digam que não o posso fazer! Pode ser teimosia da minha parte, podem dizer-me que estou a viver uma ilusão, podem achar que vou estar com 40 anos, doutorada e desempregada. E eu digo-vos: não sei o que vou almoçar amanhã, quanto mais o que vai acontecer daqui a 5, 10 ou 20 anos. Quando vou à FLUL só encontro apoio dos professores que me conhecem para eu fazer o doutoramento, encontro palavras de encorajamento e "é de jovens assim que nós precisamos para renovar o sangue da Academia". E cada vez que lá entro não me apetece sair.

Por isso, não nos culpem, jovens formados, pelo facto de o país não saber aproveitar esta geração que tanta vontade tem de fazer coisas novas e de ajudar a que o país saia da lama. Não nos culpem e não nos digam, àqueles que querem ficar, que estamos errados. E não me digam que eu não posso ou não devo fazer o doutoramento, quando é exactamente isso que eu quero fazer! Não é para ter um canudo, não é para ser mais do que os outros, é porque eu gosto de estudar. EU GOSTO! 

E não me digam que eu tenho de ir para fora quando eu quero ficar. Nem todos temos que emigrar, nem todos têm que abrir negócios e nem todos têm que baixar a cabeça e lamentar-se. Por isso, não me digam que não posso ser professora universitária. Porque eu posso e vou sê-lo.