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Dramas de Primeiro Mundo

Dramas de Primeiro Mundo

06.Jun.18

Ansiedade: A Ressaca

Diana M.

Não, não é mais um filme da saga "A Ressaca". Hoje venho falar-vos de outro tipo de ressaca.

 

Venho falar sobre as horas, os dias após um ataque de ansiedade, porque acho que não é um assunto muito falado. Há bons post sobre transtornos de ansiedade e pânico, há bons sites que falam e explicam bem o assunto (bem como outro tipo de doenças mentais), mas pouco se fala naquilo que se sente depois disso passar.

Como já falei aqui, eu tenho uma coisa chamada Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) com outras coisas à mistura que têm a ver com a minha história e as minhas experiências.
Os últimos dias têm sido vividos com a ansiedade mais elevada do que o normal (sim, porque eu tenho ansiedade todos os dias) e ontem a coisa intensificou-se. E veio tudo aquilo que eu estava à espera: o choro compulsivo, o não me conseguir mexer e ficar em posição fetal no sofá, o sentimento de que o meu mundo ia acabar, enfim... Nada de novo para mim. Fiz o que já sei que devo fazer, que é tomar a medicação adequada e colocar-me numa situação que me deixe confortável e desfoque a minha mente de tudo aquilo que eu estava a sentir. Ontem funcionou com a série Bones e com a conversa com a minha melhor amiga que me assegurou de que estava tudo bem. Consegui comer qualquer coisa e fui dormir.

Ora, em termos biológicos o que é que acontece? Quando experienciamos um ataque de ansiedade e/ou pânico, o nosso corpo entra de forma instintiva no modo "fight or flight" (atacar ou fugir), como se estivéssemos numa situação de perigo real. Somos injectados com adrenalina, a pressão sanguínea aumenta porque o sangue é bombeado para os braços e para as pernas (para lutarmos ou fugirmos) deixando de parte o estômago e os intestinos (má-disposição e diarreia, anyone?), as pupilas dilatam para estarmos mais antentos ao que nos rodeia (é por isso que é má ideia e muito difícil estarmos em ambientes com muita gente e muito barulho nestas situações, porque os estímulos sensoriais são ampliados) e a respiração torna-se ofegante.

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(da autoria de Gemma Correll)

 


Quando tudo isto passa temos a ressaca. O meu dia de hoje.

Parece que fui atropelada por um autocarro, não tenho vontade de fazer nada, a minha energia e concentração são zero, estou cheia de frio, com dores de cabeça e parece que ainda não desci à terra (ficará para outro post esse outro sintoma de que se fala muito pouco, que é a despersonalização). O nosso corpo esforçou-se tanto no(s) dia(s) anterior(es), esteve sujeito a tanta tensão, que é completamente normal e compreensível estarmos de rastos nos dias a seguir.

Então quais são as minhas sugestões fruto da minha experiência pessoal e de coisas que li por aí nos meandros da internet? Cuidem-se e façam aquilo que é o melhor para vocês. É claro que temos de ir para o trabalho, para a escola, cuidar dos filhos, irmos às compras. Há sempre coisas que não podemos deixar de fazer. Mas há pequenas coisas que podem ajudar.

1. Se tiverem medicação que possam tomar, por favor tomem-na. Não é sinal de fraqueza e vai ajudar-vos durante o dia.
2. Música. Ouçam a vossa música preferida ou aquilo que vos apeteça ouvir no momento. Pode ajudar no caminho para o trabalho ou para a escola e levantar um bocadinho o ânimo.
3. Falem com alguém que vos ouça a sério, sem julgamentos, desabafem, tirem o monstro cá para fora. Acreditem que é das melhores coisas que podem fazer. Se for com alguém que passa pelas mesmas coisas melhor, porque vai ajudar-nos a colocar as coisas em perspectiva e sentimo-nos menos sozinhos. Nem que seja "por favor, diz-me que, apesar disto tudo, vai ficar tudo bem!" Esta frase e um abraço podem ser tudo.
4. Façam as coisas com calma, ao vosso ritmo. Este é um dia diferente dos outros, têm que dar crédito a vocês próprios por se conseguirem ter levantado da cama e ter ido trabalhar. O mundo não vai acabar, nem vão ser pessoas piores por terem deixado o trabalho X pendente, ou porque não ligaram à pessoa Y. Amanhã será melhor e vocês vão conseguir compensar.
5. Cuidem-se. Se têm frio, vistam um casaco mais quente e confortável; deixem os saltos altos de lado e calcem uns ténis ou umas sabrinas; levem a mala mais leve, se puderem; não tiveram a energia para tomar banho? Paciência. Muito desodorizante e rabo de cavalo. O comboio com mais lugares sentados dá uma volta maior e faz com que vocês cheguem 10 minutos atrasados? Apanhem esse, que sempre vão confortáveis e é menos um stress. O mundo não vai parar por 10 minutos.
6. Tenham um kit ansiedade: com medicação (para ansiedade, estômago, intestinos, dores, febre) um creme ou um óleo essencial com um cheiro que vos acalme, uma folha com frases encorajadoras escritas por vocês que vocês sabem que vos possam ajudar, tipo mantra (fiz isso comigo há umas semanas, para uma conferência, e resultou!), rebuçados/pastilhas elásticas, uma foto do cão/gato/pássaro/porquinho da índia que vos sossegue, o que quer que seja que vos possa ajudar a ultrapassar este dia de ressaca.
7. Quando chegarem a casa tomem um banho ou um duche demorado, quente, relaxante, se tiverem de chorar, chorem (lembrem-se que esta também é uma forma do corpo se libertar da tensão), vistam uma roupa confortável e façam o que vos apetecer. Querem comer? Comam. Não querem? Não comam. Querem ver as Kardashians? Vejam as Kardashians. Ou outro programa qualquer que vos satisfaça/conforte/ajude o cérebro a desfocar.
8. Durmam. É assim que o corpo recupera. Mesmo que ainda não tenham sono, vão para a cama, levem um livro e deixem-se ir até o sono pegar. Ficaram com a louça do jantar para lavar e a cozinha num caos? Não faz mal, arruma-se amanhã. Hoje cuidem de vocês, mimem-se, confortem-se, sejam bondosos convosco, dêm-se um desconto e amanhã correrá melhor.

Não estão sozinhos e é claro que este post ou qualquer outro que encontrem sobre este e outros temas não substitui uma ida a um psicoterapeuta que vos poderá ajudar mais com os vossos problemas em específico. A psicoterapia e a medicação adequada ajudam imenso, mas têm de ser vocês a dar o primeiro passo. Não estão a ser fracos, não são piores que ninguém. Pedir ajuda é das coisas mais corajosas que alguém pode fazer e todos merecem isso.

Depois de tudo isto, quero colocar aqui alguns créditos e sugerir outros sites que possam ler e, quiçá, ajudar-vos noutras coisas.

 

How to deal with the anxiety attack "hangover" - Foi o artigo que li e me inspirou a escrever este post

Artist Gemma Correll's Comics About Anxiety & Depression Shed Light On These Invisibile Illnesses With A Gentle Dose Of Humor - Um artigo no Bustle dedicado aos desenhos da Gemma Correll sobre Ansiedade e Depressão, com um toque de humor.

The Mighty - Neste site podem encotnrar histórias contadas na primeira pessoa por aqueles que passam pelas situações e os assuntos vão desde ansiedade, depressão, transtorno bipolar, stress pós-traumático, esquizofrenia, autismo, mas também fibromialgia, parkinson, lupus, esclerose mútlipla, síndrome do colón irritável, entre outras. Basta procurarem e conseguem ter acesso a textos informativos, mas que também servem de apoio a quem passa por todas estas doenças.

The Hilarious World of Depression - Este é um podcast que mistura comédia e depressão através dos convidados, que normalmente são comediantes e que contam as suas histórias.

The Mental Illness Happy Hour - Aqui os temas são mais abrangentes, onde se explora doenças mentais, traumas, dependências, e os convidados entrevistados tanto podem ser psicólogos, psicoterapeutas, como também figuras públicas que falam sobre as suas experiências.