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Dramas de Primeiro Mundo

Dramas de Primeiro Mundo

01.Set.18

Sair de casa também dói. E não é pouco

Diana M.

Ando há um ano a trabalhar este momento. Muito trabalho interior, muitas sessões de terapia, muitas conversas com amigas, muita antecipação, entusiasmo, mas também medo, ansiedade, dúvidas, inseguranças que tinham mais a ver comigo do que com a mudança em si.

Passadas duas semanas de que saí de casa dos meus pais e no contexto de quem tem um transtorno de ansiedade generalizada e outras perturbações emocionais, eis aqui o balanço.

 

Viver sozinha (nas primeiras duas semanas, pelo menos) é:

  1. Dormir todas as noites abraçada a uma almofada do Winnie-the-Pooh para conforto.
  2. Tomar medicação todos os dias, religiosamente, para poder funcionar. Não, não sinto vergonha ou culpa por isto. E ninguém deve sentir! Se o nosso cérebro não funciona como os outros e há desequilíbrios químicos, então eles também se resolvem com a medicação.
  3. Falar com a minha terapeuta todos os dias. Seja por mensagens ou por chamada telefónica. Ajuda bastante.
  4. Ir a casa dos pais todos os dias para sossegar o coração. E receber mimos da gata velhota.
  5. Levar as coisas com calma e ver grandes vitórias em pequenas coisas. Se naquele dia só deu para varrer o chão, óptimo! Se só deu para fazer a cama, fantástico. Se só deu para levantar da cama, tomar banho e ficar a ver tv, tudo bem!
  6. Chorar as vezes que tiver de chorar porque é difícil, é uma mudança brutal e vem tudo à flor da pele: tristeza, solidão, medo, frustração, inseguranças, vontade de voltar atrás, achar que estamos a falhar quando até estamos a ganhar.
  7. Ter a televisão sempre ligada, não importa o canal, só para haver barulho em casa (eu tenho uma família grande e uma casa pequena, por isso há sempre barulho, movimento, gente a mais)
  8. É habituar-me às manhãs e às noites, mas não completamente às tardes e fins de tarde.
  9. É conquistar uma parte da casa de cada vez. Sentir-me bem na sala e no quarto, mas ainda não estar a 100% na cozinha ou no escritório.
  10. É ver e rever as séries que nos trazem conforto. É rever a Grey e a Teoria do Big Bang e As Aventuras do Gumball. Sim. Eu vejo desenhos animados. É também começar a rever uma das minhas séries favoritas: Penny Dreadful porque Vanessa Ives <3
  11. Abrir os estores da cozinha e ter a companhia de um dos vários gatos da vizinha do prédio ao lado que me olham da sua marquise todos os dias de manhã com ar de "quem é aquela despenteada?".
  12. Habituar-me à nova paisagem no caminho para a estação do comboio.
  13. Ir sentada no comboio de manhã, à hora de ponta!!
  14. Chorar mais um bocado e sentir-me a pessoa mais sozinha do mundo e esperar que passe. Porque passa.
  15. Esquecer-me onde estão as coisas, nos primeiros tempos.
  16. Estar emocionalmente exausta e não dizer coisa com coisa, ou não me lembrar das palavras, ou ter as chaves na mão e não me lembrar para que é que quero aquilo.
  17. Usar as limpezas e arrumações como forma de espantar a ansiedade. Às vezes não resulta e não faz mal, mas quando resulta, yay!
  18. Crescer enquanto mulher, dar mais valor à família e aos amigos.
  19. Esperar ansiosamente pelo outono para encher a casa com velas e mantas e luzinhas e decoração outonal.

 

Conclusão: Dói. É muito difícil nos primeiros tempos. Não está a ser fácil, mas acredito que vai melhorar. Ainda sinto que aquela casa não é minha. É-me estranha. Vou conquistando os espaços aos poucos - já consigo sentir-me bem no quarto e na sala. A gratificação de um momento destes não é imediata. Não vamos dar logo o grito do Ipiranga. E temos de fazer aquilo que nos for mais confortável. Se for passar a manhã a ver O Senhor dos Anéis enquanto se come palmiéres, que seja! Se for dormir abraçados a uma almofada, qual é o problema? Não tenho a casa num brinco, não está arrumada nem limpa a 100%, mas também sou eu a decidir isso e o que importa é que eu me sinta bem e confortável. Nem todos os dias acordo virada para isso. Nem todos os dias tenho força. E há que nos respeitar também, porque a ansiedade é lixada e só quem vive com isso é que sabe. Há dias em que levantarmo-nos da cama é uma luta. Ás vezes cozinhar nem que seja um ovo estrelado pode ser avassalador e mais vale encomendar comida, ou comprar comida pronta que é só aquecer no microondas, ou ir comer a casa dos pais e trazer de lá comida também. Nos primeiros tempos, até nos habituarmos, até criarmos rotina, tudo vale. 

 

Vou todos os dias a casa dos meus pais, falo com a minha mãe diariamente para manter a ligação com eles e uma normalidade que me ajuda a lidar com a estranheza de estar numa casa que ainda não sinto como minha. É um processo, vai melhorando com o tempo, e quanto mais insistirmos menos difícil se vai tornando. Vai continuar a haver momentos difíceis, mas a vida é assim. Só passando pelas coisas é que podemos lidar com elas e saber do que somos feitos. E às vezes somos capazes de nos surpreender a nós próprios. É uma viagem, uma aprendizagem, é crescimento. E o crescimento também é feito de dores. Mas vão passando.

 

E aqui estou eu a sobreviver a isto tudo o melhor que posso, passadas duas semanas. Duas semanas!

 

E não se preocupem, adivinho mais posts sobre esta nova fase da minha vida. 

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